domingo, 15 de outubro de 2023

OUTUBRO ROSA, A PORTA DE ENTRADA DO NOVEMBRO AZUL?

  

Projeto CHM Sem Bacilo e a Saúde do homem

Através do Projeto CHM Sem Bacilo o CCPBF tem se deparado na prática com a realidade que já conhecemos, que é o desapego dos homens a qualquer tratamento preventivo de saúde, o que nos leva a refletir sobre quais mecanismos adotar para o enfrentamento de doenças como Tuberculose, câncer da próstata ou as corriqueiras mas não menos alarmantes, hipertensão e diabetes.  

Bastariam os dados do INCA, apontando que aproximadamente 1% dos casos de câncer de mama são atribuídos aos homens. Porém, o Outubro Rosa tem caráter fundamental de adesão do público masculino ao Programa de Saúde do Homem, sobretudo por sua visibilidade nacional. Nesse caso não é apenas o apoio e a solidariedade dos homens em relação as mulheres ao seu redor, que deve ser colocado como prioridade, mas também que não sejam só as mulheres que devam ter o serviço público e gratuito de saúde como algo relevante à sociedade, considerando que existem estratégias de saúde inclusive para o público masculino.   

 

Durante a gestão do então Ministro da Saúde José Gomes Temporão, o SUS já apresentou experiência de buscar uma maior aproximação do público masculino ao trabalho de prevenção da saúde o que, por fim, não deu muito certo. Segundo o Ministério da Saúde,  " A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) foi implementada em 2009 com o objetivo de promover a melhoria das condições de saúde da população masculina brasileira, contribuindo para a redução da morbidade e da mortalidade dessa população, abordando de maneira abrangente os fatores de risco e vulnerabilidades associados" 1

Temporão, Ministro que lançou o Programa de Saúde do Homem

Ocorre que os homens acessam bem menos as Unidades de Saúde, que são a forma de acessar o SUS. Os homens, no geral, não dão a devida atenção às ações de prevenção, o que contribuiu com o declínio do programa, que prevê atenção a cinco fatores fundamentais:

  1. Acesso e Acolhimento: objetiva reorganizar as ações de saúde, por meio de uma proposta inclusiva, na qual os homens considerem os serviços de saúde também como espaços masculinos e, por sua vez, os serviços reconheçam os homens como sujeitos que necessitam de cuidados e acesso à saúde;
  2. Saúde Sexual e Saúde Reprodutiva: promove a abordagem às questões sobre a sexualidade masculina, nos campos psicológico, biológico e social. Busca respeitar o direito e a vontade do indivíduo de planejar, ou não, ter filhos;
  3. Paternidade e Cuidado: busca sensibilizar gestores (as), profissionais de saúde e a sociedade em geral sobre os benefícios da participação ativa dos homens no exercício da paternidade em todas as fases da gestação e nas ações de cuidado com seus (suas) filhos (as), destacando como esta participação pode contribuir a saúde, bem-estar e fortalecimento de vínculos saudáveis entre crianças, homens e suas (seus) parceiras (os);
  4. Doenças prevalentes na população masculina: reforça a importância da atenção primária no cuidado à saúde dos homens, facilitando e garantindo o acesso e a qualidade dos cuidados necessários para lidar com fatores de risco de doenças e agravos à saúde mais prevalentes na população masculina;
  5. Prevenção de Violências e Acidentes: visa a conscientização sobre a relação significativa entre a população masculina e violências e acidentes. Propõe estratégias preventivas na saúde, envolvendo profissionais e gestores de saúde e toda a comunidade.

Ivan Machado, Palestra e entrevista no SESC Tijuca: o papel didático
do Outubro rosa, também para o homem 


Segundo o DVIASHV, que monitora dados de Tuberculose e HIV/AINDS, os homens sofrem o dobro da incidência de Tuberculose em relação as mulheres, numa proporção de 4,3 casos por 100 mil, enquanto os números são de 21,2 no caso das mulheres. Números que demonstram o tamanho do distanciamento dos homens em relação ao serviço público de saúde. Além disso, vale lembrar que esses números refletem dados oficiais. Ou seja, é possivel que essa disparidade entre mulheres e homens seja ainda maior, se considerarmos que muitos casos não chegam a ser notificados, devido a não visita dos homens ao posto de saúde. 

Então, a maior relevância do Outubro Rosa é sua visibilidade, que pode contribuir significativamente para o acesso dos homens ao Novembro Azul. Longe de lançar sobre a mulher mais uma responsabilidade em relação aos homens, entendemos ser fundamental que a cultura da atenção básica a saúde seja reafirmada nos nos lares. Entendemos que o machismo, por mais estranho que pareça, impõe uma forte carga de medo sobre os homens que, por sua vez, se sentem responsáveis por uma imagem de ser invencível, sobretudo diante de suas famílias. 

Precisamos urgentemente levar os homens ao convencimento de que, pedir ajuda, não é um fator depreciativo, muito pelo contrário. 

O homem, sua saúde e os fatores socioculturais que o cercam 

Com a proposta de aliar a estética da cultura a promoção e educação em saúde, no contexto do "Programa 90x" Favela da FioCruz, percebemos, através do Projeto CHM Sem Bacilo que, de fato, o homem ainda tem muito que avançar, no que diz respeito a sua proximidade com o que lhe é oferecido pelo SUS.  O foco do projeto é o enfrentamento a Tuberculose no território que chamamos de "Chatuba em Mesquita" em Mesquita, município da Baixada Fluminense.

Um estudo de revisão sistemática identificou os fatores que contribuem para a baixa adesão dos homens aos programas de assistência à saúde, como o nível educacional, a condição econômica, as crenças culturais, além do conhecimento inadequado sobre a doença, a baixa percepção dos benefícios do tratamento, o medo de efeitos colaterais, a fadiga em relação ao uso crônico de remédios, o baixo apoio familiar e social ao cuidado com a saúde e as questões psicológicas associadas1. 

Outro estudo de revisão de literatura apontou os fatores relacionados à baixa adesão do homem aos serviços de saúde, como o fato do homem considerar-se saudável e manter o pensamento cultural de ser forte e invulnerável. Outro fator importante é a ausência de especialistas em saúde do homem nos serviços de saúde, estrutura dos serviços de saúde e campanhas que privilegiam grupos frágeis. O horário de funcionamento dos serviços de saúde, demora no atendimento e a necessidade de retorno a consultas são motivos alegados. A ausência de ações voltadas para saúde do homem é de fato um elemento importante na análise. Porém, o medo de descobrir doenças e a unidade de saúde ser considerado um ambiente feminilizado são fatores compartilhados entre os homens2. 

Um artigo sobre a baixa adesão ao tratamento das doenças cardiovasculares destacou que a doença é vista como uma demonstração de fragilidade pelos homens, que tendem a negar os sintomas e evitar procurar ajuda médica. Além disso, o artigo mencionou que a tuberculose é uma das doenças infecciosas que mais afeta os homens no Brasil, sendo responsável por cerca de 4.500 mortes por ano. O artigo sugeriu que os homens devem ser estimulados a cuidar da sua saúde e buscar orientação profissional sempre que necessário3.

Um artigo sobre a baixa adesão dos homens aos serviços da Estratégia Saúde da Família relatou que muitos homens trabalhadores apresentam dificuldade na procura dos serviços primários de saúde devido à falta flexibilidade de horários de funcionamento das Unidades Básicas de Saúde. Há também deficiência dos serviços de saúde em absorver a demanda trazida pelos homens e escassez de campanhas voltadas diretamente para esse segmento. O artigo também afirmou que a tuberculose é uma das principais causas de morbimortalidade entre os homens no Brasil, sendo necessária uma maior sensibilização e conscientização desse público sobre a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado4. 

Confrontar fatores culturais tão arraigados e propor mudanças de comportamento aos homens é um desafio que precisamos enfrentar. Acreditamos que o desenvolvimento de estratégias eficazes na adesão desse público ao SUS, pode contribuir inclusive com a mudança de mentalidade, possibilitando a diminuição gradativa de expressões e práticas machistas e misóginas, nos vínculos sociais. Ou seja, nosso entendimento é que o exercício do direito cidadão de acesso a mecanismos que garantam a vida podem, concomitantemente, propiciar melhores vínculos sociais e afetivos, considerando seu apelo educativo aos homens enquanto gênero.  

________________________________________


#90xfavelas #saudenasfavelasrj #CHMsembacilo @oficialfiocruz @fiotecfiocruz @instalerj @abrascooficial @sbpcnet @ufrj.oficial @uerj.oficial @puc.urgente @ccpbaixada

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

NA DEFESA DE UMA CONSCIÊNCIA NEGRA E PERIFÉRICA


Dia da Consciência Negra e Periférica no CCPBF


 O CCPBF tem como missão estatutária e ideologica atuar na Baixada Fluminense, compreendendo que há uma histórica necesidade de ampliar a visibilidade de nossas lutas e práticas culturais, numa região cuja população é majoritariamente negra e invisibilizada, em detrimento inclusive de seus quase quatro milhões de habitantes. Assim, entendemos que é fundamental ampliar nosso olhar para nós mesmos, a partir de nosso potencial intelectual, humano e, porque não dizer, político. Nesse sentido nós comprometemos em abrir um diálogo sobre a necessidade de uma consciência negra e periférica para esse 20 de novembro de 2023, a partir das potrncias culturais de nossa região. 

A consciência negra e periférica é uma forma de reconhecer e valorizar a história, a cultura e a identidade dos povos de origem africana que foram trazidos à força para o Brasil e que resistiram à escravidão e ao racismo. Essa consciência também busca promover a igualdade racial e social, denunciando as desigualdades e violências que afetam as populações negras nas periferias urbanas e rurais.

O dia 20 de novembro foi escolhido como o Dia da Consciência Negra porque marca a morte de Zumbi dos Palmares, um dos principais líderes quilombolas que lutou pela liberdade de seu povo contra os colonizadores portugueses. Zumbi foi assassinado em 1695, após resistir por anos no Quilombo dos Palmares, uma comunidade formada por escravizados fugidos das fazendas no nordeste do Brasil. Zumbi se tornou um símbolo da luta e da resistência dos negros no Brasil, e sua memória é celebrada como uma forma de reivindicar direitos e justiça para os afrodescendentes.

A consciência negra e periférica também envolve o reconhecimento das lideranças negras que surgem das periferias rurais e urbanas, que atuam em diferentes áreas e movimentos sociais, culturais, políticos, econômicos e educacionais. Essas lideranças são importantes para dar voz e visibilidade aos intelectuais, artistas, ativistas, empreendedores, trabalhadores e trabalhadoras negras que contribuem para o desenvolvimento do país, mas que muitas vezes são invisibilizados ou discriminados pela sociedade. Essas lideranças também são responsáveis por criar redes de apoio, formação, mobilização e transformação nas periferias, buscando melhorar as condições de vida e garantir os direitos das populações negras.

Portanto, a consciência negra e periférica é uma forma de afirmar a identidade, a dignidade e a cidadania dos negros e negras no Brasil, bem como de valorizar sua história, sua cultura e sua luta. É também uma forma de combater o racismo estrutural que persiste na sociedade brasileira, gerando desigualdades e violações de direitos humanos. A consciência negra e periférica é um convite para a reflexão crítica, o diálogo intercultural e a ação coletiva em prol da democracia, da diversidade e da justiça social.

A produção cultural da Baixada Fluminense é uma expressão da diversidade e da resistência do povo negro que habita essa região. A história da nossa região é marcada pela presença de quilombos, comunidades formadas por escravos fugidos que buscavam a liberdade e a autonomia. Um dos maiores exemplos de quilombo no Brasil foi o Quilombo dos Palmares, liderado por Zumbi, um dos símbolos da luta contra a escravidão colonial. Ainda assim, há tantos outros exemplos de luta e resistência que ainda não são de nosso conhecimento, também por sua condição de invisibilidade periférica.

A luta de Zumbi dos Palmares é uma inspiração para os negros periféricos que enfrentam o racismo e a violência no Brasil contemporâneo. A cultura negra produzida nas periferias é uma forma de afirmar a identidade e a dignidade desse povo, que tem uma história de opressão, mas também de resistência e criação. A música, a literatura, o teatro, a dança, as artes visuais e outras manifestações culturais são instrumentos de denúncia, de protesto, de educação e de transformação social.

Não precisamos de mais mártires como Zumbi dos Palmares e tantos outros invisibilizados, que morreu pela liberdade do seu povo. Precisamos de novas mentes pensantes que valorizem a cultura negra e que lutem por um país mais justo e igualitário. A Baixada Fluminense é um celeiro de talentos e de potencialidades que merecem ser reconhecidos e apoiados. A produção cultural da baixada fluminense é um patrimônio do Brasil e uma contribuição para a humanidade.

-‐-------------

Segue abaixo uma série de referência para iniciar  o debate sobre o tema:

(1) Consciência negra: o que é, origem, história, dia - Brasil Escola. https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/consciencia-negra.htm.

(2) Consciência negra: história e criação da data comemorativa. https://www.todamateria.com.br/consciencia-negra/.

(3) Dia da Consciência Negra: O que significa esta data? - UOL. https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/11/20/o-que-significa-o-dia-da-consciencia-negra.htm.

(4) Consciência Negra: O que é? Qual a Origem? O que tem a ver com Zumbi?. https://educacao.uol.com.br/noticias/2021/11/03/o-que-e-consciencia-negra.htm.

(5) Consciência Negra – o que é? - Geledés. https://www.geledes.org.br/consciencia-negra-significado/.

(6) 20 de novembro – Dia da Consciência Negra - Brasil Escola. https://brasilescola.uol.com.br/datas-comemorativas/dia-nacional-da-consciencia-negra.htm.

(7) SP sanciona lei que torna dia 20 de novembro feriado estadual da ... - G1. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/09/13/sp-sanciona-lei-que-torna-dia-20-de-novembro-feriado-estadual-da-consciencia-negra.ghtml.

(8) Consciência negra: o que é, comemoração, importância - Mundo Educação. https://mundoeducacao.uol.com.br/sociologia/consciencia-negra.htm.

(9) Dia da Consciência Negra agora é feriado em todo o estado de São Paulo .... https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-09/dia-da-consciencia-negra-agora-e-feriado-em-todo-o-estado-de-sao-paulo.

(10) Projeto Asas desenvolve lideranças nas periferias. https://www.geledes.org.br/projeto-asas-desenvolve-liderancas-nas-periferias/.

(11) Ministério da Igualdade Racial é prioridade para lideranças negras em .... https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/11/20/ministerio-da-igualdade-racial-e-prioridade-para-liderancas-negras-em-grupo-de-transicao.ghtml.

(12) 81 lideranças de movimentos negros de todo país gravam ... - Geledés. https://bing.com/search?q=lideran%c3%a7as+negras+nas+periferias.

(13) 81 lideranças de movimentos negros de todo país gravam ... - Geledés. https://www.geledes.org.br/81-liderancas-de-movimentos-negros-de-todo-pais-gravam-mensagem-ao-povo-brasileiro/.

(14) Negras lideranças: mulheres ativistas da periferia de São Paulo. https://dandaraeditora.com.br/produto/negras-liderancas-mulheres-ativistas-da-periferia-de-sao-paulo/.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

FESTA DE ARREMATE: exemplo congraçamento e resistência cultural

Nesse mês de setembro temos pelo menos duas festas que celebram o encontro e o congraçamento entre os reisados na Região  Metropolitana do Rio de Janriro. A primeira acontece no dia 03 em São Gonçalo, onde o Mestre Fumaça, a frente da Bandeora Nova Flor do Oriente acolhe as jornadas irmãs. A segunda ocorre no município de Mesquita,  onde o Mestre Cláudio, a frente da Folia Sempre Viva do Oriente, acolhe seus convidados no dia 09.



 As festas de arremate são eventos que marcam o encerramento das folias de reis, uma tradição popular e religiosa que celebra a visita dos três Reis Magos ao menino Jesus. Essas festas são importantes por vários motivos, entre eles:

As festas de arremate são eventos que marcam o encerramento das folias de reis, uma tradição popular e religiosa que celebra a visita dos três Reis Magos ao menino Jesus. Essas festas são importantes por vários motivos, entre eles:

- Elas promovem o congraçamento entre os foliões, que são os participantes das folias de reis, que se reúnem para cantar, dançar, rezar e se divertir. Os foliões formam grupos chamados de companhias ou ternos de reis, que desfilam pelas ruas e visitam as casas das pessoas que os recebem com hospitalidade e generosidade. Nas festas de arremate, as companhias se encontram e trocam experiências, saberes e afetos.

- Elas revelam a diversidade cultural no contexto dos reisados, que são as apresentações teatrais que contam a história dos Reis Magos. Cada região do Brasil tem suas próprias características na forma de representar o reisado, com diferentes roupas, instrumentos, músicas, danças e personagens. Nas festas de arremate, é possível apreciar essa riqueza cultural e reconhecer a identidade de cada grupo.

- Elas fortalecem os vínculos sociais e familiares entre os devotos dos reis, que são as pessoas que têm fé nos Reis Magos e seguem seus ensinamentos. A Folia de Reis é uma manifestação de devoção e gratidão aos Reis Magos, que são considerados protetores e intercessores dos fiéis. Nas festas de arremate, os devotos renovam sua fé e sua esperança, além de compartilhar seus valores e suas tradições com as novas gerações.



Portanto, as festas de arremate são momentos de celebração, integração e preservação da Folia de Reis no Brasil. 

Referências:

(1) A Folia de Reis no Brasil - Toda Matéria. https://www.todamateria.com.br/folia-de-reis/.

(2) Folia de Reis: origem, celebração, comidas - Brasil Escola. https://brasilescola.uol.com.br/historiab/folia-de-reis.htm.

(3) >Prestígio e Autoridade em disputa: os corpos dos mestres e palhaços na .... https://ojs.ifch.unicamp.br/index.php/proa/article/download/3063/2579.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Cultura e Assistência social, na busca por cidadania plena

 

Mestre Pipoca e sua família: cultura popular gerando inclusão social


Patricia Lyra*

Segundo a Constituição brasileira, a cultura compõe o leque de direitos humanos. Podemos dizer então que a Cultura é uma dimensão do social, tal qual o econômico e o político. Logo, todo acontecimento cultural é um acontecimento social.

Os trabalhadores da política de assistência social que tenham uma atitude investigativa apurada, podem descobrir potencialidades culturais e investir nelas as suas ações. Ainda, podem até requerer que mais ações culturais aconteçam tais como: folguedos, rodas, contos, serestas de violas, encenações ou hip-hop. Também podem potencializar formações para esse grupo social. Se faz extremamente importante que esses profissionais fortaleçam tais iniciativas, buscando estratégias para que ações culturais sejam fortalecidas, valorizadas e se tornem de fácil acesso às comunidades e grupos com quais atua em seus territórios de referência.

Sendo a intersetorialidade característica da política de Assistência Social, no que diz respeito à expectativa de maior capacidade de enfrentamento das inúmeras expressões da questão social, das demandas trazidas pela população usuária, seria um equívoco não se articular com a cultura local, no objetivo de construir objetos comuns de intervenção.

O Serviço social do CCPBF – Centro de Cultura Popular da Baixada Fluminense – ciente do poder transformador da cultura através da atuação dos agentes culturais, bem como do potencial artístico cultural que configura a Baixada Fluminense, com foco principal na sociedade mesquitense, entende o quanto essa parceria pode trazer mudanças incríveis na vida dos usuários. Sabendo valer-se da mediação entre ambas as políticas, para que essa troca se fortaleça e esteja cada vez mais presente em nossas ações, o trabalho profissional será “Um grande espetáculo”.

“Em um lugar onde não há atividades culturais, as violências viram espetáculo”.

Autor Desconhecido

_______________________________________________________

*Patricia Lyra é graduada em Serviço Social pela UFRJ, Assistente Social do CCPBF e especialista em Educação e Diversidade

 

domingo, 12 de fevereiro de 2023

 





Por Ivan Machado

Nesse início de ano fecharmos mais um ciclo no acompanhamentos das folias de Reis na Baixada Fluminense, constatando uma série de questões que nos que vem nos preocupando nessa última década. Sabemos que o fim ou esgotamento de algumas expressões culturais é algo natural ao longo do tempo, o que também demonstram as mudanças pelas quais a sociedade passa, excetuando situações atípicas como a Pandemia da Covid-19 ou as estratégicas genocida de um governo que, felizmente, não vai mais fomentar o ciclo de morte ou a exclusão econômica e social pelo qual passamos e que afetou diretamente toda cadeia produtiva da cultura.

Quem vê um tradicional cortejo reizeiro nesse início de 2023 e compara com as jornadas ocorridas até 2017, vai constatar que até mesmo a alegria está envolta em farrapos. Ainda que saibamos do potencial comunitário e famílias de captar recursos para suas tradições, percebemos que essa jornada, que se deu entre 25 de dezembro de 2022 até 20 de janeiro de 2023, apresentou em cores a precariedade das expressões estéticas que não disputam mídia, sobretudo aquelas que têm origem na camada economicamente menos favorecida.

Hoje, ao término da Festa de Arremate ocorrida no bairro da Chatuba em Mesquita, bairro esse que já figurou entre os de menos IDH de nosso estado, podemos perceber que há uma nova geração de foliões que está cedendo à

necessidade do uso ainda maior da reciclagem e outras formas de reaproveitamento de meios, na hora de confeccionar seus fardamentos. E isso, naturalizado a precariedade nesse que sempre foi para a maioria dos envolvidos o único nicho de exposição de pompa e beleza estética, em se tratando de figurino festivo.

Nesse momento no qual temos em perspectiva a retomada de diálogo do MinC com a sociedade, vale gravar nos corações e mentes de nossos gestores a responsabilidade de desobstruir os canais pelos quais fluem a criatividade dos grupos que expressam nossa brasilidade em sua forma mais rica e pura.

 VIVA (e deixem viver) NOSSA CULTURA  POPULAR!!

quarta-feira, 26 de maio de 2021

CULTURA DE BASE - segundo ano sem festaça





Separamos um dos três encontros do Cultura de Base, evento virtual realizado pelo CCPBF, para discutir alguns aspetos em comum entre os grupos e movimentos de cultura popular, em particular os que se expressam na região  da Baixada Fluminense, com foco nesse momento de isolamento social. No dia 19 de maio o encontro virtual contou com a participação de Kalunga da Junina, Rafaelle Gomes e Fernando Antonio, todos integrantes de grupos juninos e diretamente envolvidos com os festejos que celebram Santo Antônio, São Pedro e São João, traçando um panorama amplo do que ocorre hoje com esses festejos e grupos, a partir do ponto de vista de cada um dos participantes do bate-papo, nesse segundo ano sem festejos juninos.

Ivan Machado, recebendo Kalunga, Fernando e Rafaelle
O primeiro fator a ser discutido aqui é em relação ao número de  quadrilhas juninas que se vê hoje em relação aos anos 90 por exemplo, quando Kalunga, integrante da Junina Moçada que Agita em Belford Roxo, iniciou seu vínculo com esses festejos. Hoje, na condição de presidente do Centro Cultural dos Quadrilheiros Juninos do Estado do Rio de Janeiro, ele vê o declínio vertiginoso no número de grupos na região. Dos vinte e oito grupos à época no no recém emancipado município de Belford Roxo, seu grupo é o único em atividade hoje, relata Kalunga. Rafaelle Gomes, professora de história e integrante da Liga de Quadrilhas Juninas de Nova Iguaçu, cita que a burocracia sempre fez parte da vida dos lideres das quadrilhas. No entanto, a pandemia da Covid-19 serviu como forma de agravamento de uma série de outras questões já problemáticas, como a drástica diminuição dos patrocínios, o alto custo das matérias primas e a diminuição do público  presente nas festas juninas. Fernando Antônio, o promotor de eventos populares que também organizou festas de folias de reis, aponta para a gestão pública como ponto central da problemática percebida por quem lida com as festas juninas. Além do fator Segurança Pública, citado pelos três participantes como crucial para o afastamento do público, Fernando aponta para a falta de qualificação dos gestores da pasta da cultura nos municípios da Baixada Fluminense. As festas promovidas pelas prefeituras têm cedido espaço em seu repertório para estilos musicais que não interagem com o ideário junino e isso, segundo Rafaelle, contribui significativamente para o o desinteresse do público pela atividade central das festas, cada vez mais esvaziadas. "muitas vezes nos apresentamos pra nós mesmos" diz ela, queixando-se do público escasso.

Kalunga: "as lives têm sido a saída"
Já Kalunga trás uma visão esperançosa nesse contexto, entendendo que as lives vêm suprindo a falta de acesso por por parte do público. Outro fator positivo, as transmissões ao vivo possibilita maior interação com quadrilhas juninas de outros estados, ampliando o intercâmbio enquanto garantem maior diversidade de estéticas numa mesma festa, ainda que de forma virtual. Kalunga também aponta que o princípio da Economia da Cultura mudou, passando da agregação de barraqueiros nas festas presenciais para a captação de patrocinadores, veiculando anúncios durante as transmissões ao vivo. Fernando acrescenta que isso tudo não significa o fim das festas juninas. Segundo ele, uma melhor qualificação dos gestores, passando por um organizado aparato de segurança e desburocratização dos mecanismos de "nada opor", podem contribuir para que as festas juninas presenciais retomem sua amplitude e aderência na sociedade. Outro consenso é que falta proximidade entre poder público e movimentos populares de cultura, vide o abaixo acesso de muitos desses grupos aos recursos da Lei Aldir Blanc. 

Fernando: "os secretários de cultura geralmente não ajudam"


O que concluímos com esse interessante e esclarecedor encontro é que há um paralelo entre todas as manifestações culturais que não têm reflexo na mídia. A falta de aprofundamento dos gestores de cultura quanto ao conhecimento sobre linguagens que se encontram fora do jargão dos grande eventos, aliada a crise financeira e a necessidade de isolamento social tem sido um problema para os grupos tradicionais. Se considerarmos que tais grupos remontam um pouco de nosso passado, tradições e identidades, entenderemos que a escassez dessas manifestações populares contribuem muito para que nossa população se afaste  do auto conhecimento.  Além do mais, o investimento na beleza estética de nossa cultura popular é algo que pode contribuir muito para que nosso povo sinta orgulho de ser de onde é. Ou seja, a relação custo benefício em dar o devido suporte às expressões de nossa cultura popular é muito favorável, coisa que poucos gestores de cultura na Baixada Fluminense conseguem perceber.

Rafaelle: "a falta de segurança pública afasta as pessoas"


Assista a íntegra do encontro através do link


quarta-feira, 24 de março de 2021

QUEM FAZ A FOLIA - BANDEIRA FLOR DO ORIENTE

 
Mestre Rogério, terceira geração do Flor do Oriente

Vamos postar aqui uma série de textos e imagens que mostrem quem de fato compõe o cenário de nossa cultura popular, na região da Baixada Fluminense, tendo como referência nosso Reizado. E, pra começar, vamos postar aqui um pouco da história da Folia Flor do Oriente, do município de Caxias. 

Vale lembrar que são trajetórias narradas pelos próprios integrantes, com cruzamento de informações colhidas e adicionadas aqui pelo CCPBF, de modo a dar um panorama o mais amplo possível sobre quem são ou sobre quais grupos estamos falando. Acima de tudo a intensão é dar maior visibilidade e ampliar a credibilidade de nossas manifestações culturais, tanto para nós mesmos quanto para quem pesquisa ou os valoriza, sobretudo em nossa região.

A folia Flor do Oriente é um dos poucos reizados que fizeram sua jornada nesse período 2020/2021. Contido, é notória a dupla preocupação de Nora (Leonor sant anna de moraes) diretora do reizado, com seus 54 anos de idade e de folia.  Entre manutenção de uma tradição centenária e familiar que, nesse momento de pandemia, se cercou de cuidados, como o uso de máscaras e diminuição no número de integrante nas "saídas". Tais preocupações foram inclusive veiculadas na mídia, onde ficam claros os cuidados tomados, quanto aos dois aspectos mencionados aqui.    

      -------

REISADO 

FLOR DO ORIENTE


O Reisado Flor do Oriente   foi fundado  em 1872  pelo sr.  Manoel Vicente de Moraes, na  Fazenda Recreio, na cidade de Miracema.  Em 1907 seu seu irmão Marcos Vicente de Moraes  assumiu a responsabilidade de estar a frente da bandeira, conduzindo-a até  a sua morte em 1930. Seu irmão, Sr. Miguel Vicente de Moraes que era Contra-Mestre  da folia e assumiu a bandeira, conduzindo-a até seu falecimento em 1969. 

 

Seus filhos, Waldir Vicente de Moraes e Sebastião Vicente de Moraes deram continuidade à jornada, sendo que Waldir era contra-mestre e Sebastião mestre palhaço. Waldir então passou a faixa de Mestre Reiseiro para Sebastião, dando continuidade a tradição da família, até que no ano de 2007 ,Sebastião veio a falecer no dia 20 de janeiro. Waldir Vicente de Moraes que era Contramestre e diretor responsável do grupo, decide então nomear  Rogério silva de Moraes, filho mais velho de Sebastião,  como mestre do grupo a faixa de Mestre lhe foi passada no dia 27 de janeiro 2007 na festa de arremate da folia. .Rogério à época tinha 38 anos de idade e de folia, pois nasceu dentro da folia de reis. Waldir e Rogério levaram firme  a tradição centenária até o dia 28 de agosto de 2012 quando, o Contramestre Waldir também se foi. O Reisado Flor do Oriente  hoje tem  o Sr. Rogério como Mestre  Reiseiro  e a Sra. Leonor Santanna de Moraes  como diretora  e responsável pelo grupo.

 

A Folia de Reis, Reisado Flor do Oriente  tem sua sede situada na rua Felinto de Almeida   n 429 vila rosário duque de caxias  há  55 anos. O grupo está na  quinta geração de mestres e é composto em sua grande maioria por parentes e tem 40 componentes. O grupo tem como mestre Sr. Rogério Silva de Moraes  e Sra. Leonor Santanna de Moraes como diretora e responsável. As festas de arremate do Reisado Flor do Oriente acontecem sempre no primeiro sábado após o dia 20 de janeiro e seu uniforme tradicional é na cor azul e branco.